O Homem igual a Deus

O Homem Igual a Deus – Jesus Cristo

Texto: João 5:16-47

INTRODUÇÃO:

No começo de Seu grande ministério na Galiléia, Jesus fez uma viagem para Jerusalém. Enquanto estava lá, Ele curou um homem junto ao tanque de Betesda (João 5:2, 5, 8, 9a). Ao contar esse episódio, João acrescentou este sucinto comentário: “E aquele dia era sábado” (v. 9b) .

ACUSAÇÕES INCRIMINATÓRIAS (vv. 16–18)

O resultado da cura foi a confrontação cara a cara com as autoridades judaicas. Os líderes religiosos acusaram Jesus de violar a lei do sábado .

A resposta do nosso Senhor foi: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (v. 17). Em outras palavras: “É verdade que Deus descansou no sétimo dia, mas isto não quer dizer que Ele parou de fazer o bem. Até no sábado, Ele sustenta o universo. Até no sábado, Ele manda o brilho do sol e a chuva” . O argumento de Jesus era que uma vez que Deus ajuda as pessoas no sétimo dia, para Ele [Jesus] estava certo ajudar as pessoas nesse dia.

As palavras de Cristo acenderam a fúria dos líderes judeus, pois eles viam as implicações dessa afirmação. Em primeiro lugar, Jesus disse: “Meu Pai”. Os homens normalmente diziam “nosso Pai” (Mateus 6:9; Romanos 1:7; 1 Coríntios 1:3), mas Jesus disse: “Meu Pai” (Mateus 7:21; 10:32; 11 :27)—deixando implícito um relacionamento especial. Em segundo lugar, Jesus retratou Deus e Ele mesmo como estando envolvidos na mesma atividade: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também”. Diante disso, “os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque… dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus” (vv. 17, 18; grifo meu).

Fico admirado com o fato de os teólogos liberais lerem os relatos do evangelho e dizerem que Jesus nunca alegou ser o Filho de Deus, nunca alegou ser divino. Os líderes religiosos dos dias de Cristo não tiveram dificuldade de entender a relevância das palavras de Jesus.

Se Jesus não pretendesse deixar implícito que Ele era “igual a Deus”, teria sido mais simples ele dizer: “Ah, não, vocês Me entenderam mal! Não foi isso o que Eu disse”. Ele não negou a acusação deles, mas a utilizou como uma oportunidade para proferir um discurso magistral sobre Seu relacionamento com o Pai. Esse é um dos grandes sermões do Livro de João. O espaço não nos permitirá analisar versículo por versículo, mas destacaremos as idéias principais desse texto.

ALEGAÇÕES INACREDITÁVEIS (vv. 19–30)

A Premissa de Jesus – A premissa básica de Jesus foi que Ele e Seu pai eram unidos no que faziam. A expressão “fazendo-se igual a Deus” poderia ser entendida como se Cristo Se julgasse um concorrente de Deus, mas Jesus enfatizou que não era esse o caso. Ele reforçou que “o filho nada pode fazer de si mesmo” (v. 19). Novamente, disse Ele: “Por mim mesmo, nada posso fazer” (v. 30; NVI).

Exemplos: Jesus deu vários exemplos de como Ele e Seu Pai eram unidos. Nos versículos 21 a 30, três temas são recorrentes e se justapõem: dar vida, ressuscitar mortos e julgar a humanidade. Os judeus julgavam que era um privilégio de Deus (e somente dEle) dar vida, ressuscitar mortos e emitir julgamento —mas Cristo alegou ousadamente que Ele e o Pai dividiam essas funções.

  • Unidos em dar vida. Jesus falou primeiramente de dar vida: “Pois assim como o Pai ressuscita e vivifica os mortos, assim também o Filho vivifica aqueles a quem quer” (v. 21). A essa conjuntura do discurso, as palavras provavelmente se referiam ao fato de Jesus dar vida espiritual. Jesus também disse: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna , não entra em juízo , mas passou da morte para a vida” (v. 24).
  • Unidos na ressurreição dos mortos. A alegação do versículo 21 também poderia incluir dar vida corporalmente. Jesus predisse que os judeus O veriam realizar maiores obras [milagres] do que haviam visto até aquele momento, e que eles “se maravilhariam” (v. 20). Essa provavelmente era uma referência à ressurreição dos mortos durante o ministério de Cristo10—especialmente a ressurreição de Lázaro, que causaria um tumulto em Jerusalém (João 11 :1–48; 12:1, 9–11 ).

O poder de Jesus, porém, ia além da ressurreição de um punhado de pessoas mortas durante Sua estada na terra. Antecipando o final dos séculos, Ele anunciou:

porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem11 , para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo (vv. 28, 29).

Esta é uma afirmação clara e concisa a respeito da ressurreição geral de toda a humanidade na segunda vinda.

  • Unidos no julgamento. Como deixam implícito os versículos 28 e 29, a ressurreição será seguida pelo dia do juízo. Nesta obra, também, Jesus será unido com Seu Pai. Ele disse: “E o Pai a ninguém julga, mas ao Filho confiou todo julgamento”12 (v. 22).

Ele insistiu em que Deus “lhe deu autoridade para julgar, porque é o Filho do Homem” (v. 27). Novamente, Jesus afirmou: “…julgo. O meu juízo é justo” (v. 30).

Sendo Jesus e Seu Pai unidos nos atos de dar vida, ressuscitar mortos e julgar, qual deveria ter sido a resposta de Seus ouvintes? Cristo disse que todos devem “honrar o Filho do modo por que honram o Pai” e acrescentou que “quem não honra o Filho não honra o Pai que o enviou” (v. 23).

Que alegações audaciosas Jesus fez! Ele seria obrigado a apresentar provas de que o que estava dizendo era verdade ou teria de retratar Suas afirmações.

CREDENCIAIS IMPECÁVEIS (vv. 31–47)

Jesus reconheceu que Ele e Suas alegações estavam sob julgamento. Ele convocou uma progressão de testemunhas para testificarem em Seu favor.

A afirmação introdutória de Jesus em relação às testemunhas soa estranha: “Se eu testifico a respeito de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro” (v. 31). Jesus estivera “dando testemunho” ou “testificando” em favor de Si mesmo (vv. 19–30). Extraído do seu contexto, o versículo 31 poderia soar como se Jesus estivesse dizendo que Ele não estava dizendo a verdade.

A defesa de Jesus em João 5 poderia ser comparada à Sua defesa no capítulo 8. Naquela ocasião, os fariseus disseram a Cristo: “Tu dás testemunho de ti mesmo; logo, o teu testemunho não é verdadeiro” (João 8:13). E Jesus respondeu: “Posto que eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho é verdadeiro” (v. 14; grifo meu). A seguir, acrescentou: “Também na vossa lei está escrito que o testemunho de duas pessoas é verdadeiro. Eu testifico de mim mesmo, e o Pai, que me enviou, também testifica de mim” (vv. 17, 18).

Comparar as duas afirmações esclarece que em João 5 Jesus não estava confessando uma mentira, mas estava reconhecendo que, segundo a lei de Moisés, o testemunho de uma pessoa era insuficiente. Era necessário o testemunho de duas ou três testemunhas (Números 35:30; Deuteronômio 17:6; 19:15; veja Mateus 18:16). É por isso que algumas versões acrescentaram “só” ao versículo 31: Se só Cristo desse testemunho de Si mesmo, isto não seria aceito num tribunal judaico.

Jesus, portanto, acrescentou uma segunda Testemunha, a mesma testemunha mencionada no capítulo 8: Seu Pai. Cristo disse: “Outro é o que testifica a meu respeito, e sei que é verdadeiro o testemunho que ele dá de mim” (João 5:32). No contexto, isto se refere a Deus15. Jesus enfatizou: “O Pai, que me enviou, esse mesmo é que tem dado testemunho de mim” (v. 37a). Várias testemunhas seriam produzidas, mas o testemunho de cada um era, com efeito, o testemunho de uma testemunha Perfeita, Deus. Esses judeus nem tinham visto Deus nem ouvido Sua voz (v. 37b), mas Deus falou claramente com eles por meio de Seus agentes.

 

O Testemunho de João

A veracidade das alegações de Jesus não se basearam em testemunho humano (vv. 34a, 36a), mas a primeira testemunha convocada foi um homem: João Batista. João foi citado porque ele era um mensageiro especial de Deus (Malaquias 3:1; Lucas 7:27) e porque seu testemunho acerca do Messias nunca foi refutado.

Cristo disse: “Mandastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade” (João 5:33). Essa referência foi à ocasião em que uma delegação foi enviada de Jerusalém para questionar João (João 1:19–28). João dissera a eles: “…no meio de vós, está quem vós não conheceis, o qual vem após mim, do qual não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias” (João 1:26, 27). No dia seguinte, João apontou para Jesus16 dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”. “Pois eu, de fato, vi e tenho testificado que ele é o Filho de Deus” (vv. 29, 34).

João tinha um propósito distinto na vida: conduzir pessoas até Jesus. “Um dos maiores quadros religiosos da Europa é o ‘João Batista’ de Grunewald…. O detalhe surpreendente da pintura é o destaque no dedo indicador de João enquanto ele dirige a atenção para Cristo…. Em relação ao testemunho de João, Cristo disse: “Ele era a lâmpada que ardia e alumiava, e vós quisestes, por algum tempo, alegrar-vos com a sua luz” (João 5:35). A expressão chave nesta sentença é “por algum tempo”. R. C. Foster escreveu: “Eles haviam se alegrado com a luz de João por um tempo até que a luz se virou para os seus pecados!” Depois disso, nada mais quiseram com ele.

Se tivessem aceitado o testemunho de João, também teriam aceitado Jesus. E assim poderiam ter sido salvos (v. 34b).

O Testemunho dos Milagres

Cristo falou, a seguir, do testemunho de Seus milagres: “Mas eu tenho maior testemunho do que o de João; porque as obras que o Pai me confiou para que eu as realizasse, essas que eu faço testemunham a meu respeito de que o Pai me enviou” (v. 36). A palavra “obras” poderia ser usada para descrever a totalidade da vida de Jesus; certamente, tudo que Ele fez testificava o fato de que Ele era o Filho de Deus. Cristo, porém, tinha em mente os milagres que Ele realizara pelo poder de Deus.

Jesus havia realizado muitos milagres numa viagem anterior a Jerusalém (João 2:23). Em relação a esses feitos miraculosos, Nicodemos dissera: “… sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (João 3:2). Cristo também havia feito pelo menos um milagre na presente viagem a Jerusalém. É possível que o homem que Ele havia curado junto ao tanque estivesse em pé ali por

perto, enquanto Ele dizia essas palavras.

Os críticos de Jesus não podiam negar que Ele realizou milagres21, mas ainda se recusavam a aceitá-lO como o Messias.

 

O Testemunho das Escrituras

Jesus havia convocado os testemunhos de um mensageiro de Deus e de sinais divinos. Agora Ele recorria ao testemunho da Palavra de Deus: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (v. 39). Centenas de passagens do Antigo Testamento apontavam para Cristo (Salmos 2; 22; Isaías 53). Mais tarde, Jesus falou de “tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lucas 24:44 ).

Os líderes judeus, ao seu modo, eram dedicados às Escrituras. Escritos rabínicos diziam: “Quem obtém para si palavras da Lei obtém para si vida no mundo por vir”23. Por essa razão, eles refletiam nas Escrituras. Contavam as palavras, as letras; colocavam todos os “jotas” e “tils”24 (Mateus 5:18; ERC) sob seu microscópio teológico. Ainda assim, perderam de vista o propósito das Escrituras, que foram idealizadas para levar as pessoas a Cristo (Gálatas 3:24).

Pareciam homens examinando cuidadosamente uma placa de sinalização—medindo-a, fazendo rascunhos dela, anotando as descrições dela em vez de fazer o trajeto para o destino indicado. Warren Wiersbe escreveu que os judeus “examinavam para conhecer a Palavra de Deus, mas não conheciam o Deus da Palavra!” Jesus percebeu que eles tinham a Palavra em suas cabeças, mas não em seus corações. Ele disse: “Também não tendes a sua palavra permanente em vós” (v. 38).

Referindo-se aos escritos de Moisés, Jesus fez uma afirmação impressionante sobre o fato de que as Escrituras davam testemunho dEle:

Não penseis que eu vos acusarei perante o Pai; quem vos acusa é Moisés, em quem tendes firmado a vossa confiança. Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras? (João 5:45–47).

Moisés havia escrito sobre o “descendente” que viria (Gênesis 3:15; 22:18; veja Gálatas 3:16). Ele havia profetizado que esse Prometido viria da tribo de Judá (Gênesis 49:10). Ele havia falado de um profeta que surgiria como ele mesmo (Deuteronômio 18:15–18). Todos os seus escritos eram saturados de tipos e antitipos que prefiguravam o Messias. Portanto, Jesus disse que Moisés não era só uma testemunha em favor dEle, mas também, no final, seria uma testemunha contra os que O rejeitaram. Ele declarou: “Quem vos acusa é Moisés” (João 5:45b).

Tendo à Sua disposição esse calhamaço de provas, por que os líderes judeus rejeitaram Jesus? Jesus disse que o problema estava na vontade e no coração. Aquele que “sabia o que era a natureza humana” (João 2:25) emitiu a seguinte sentença: “Contudo, não quereis vir a mim…. não tendes em vós o amor de Deus” (5:40–42; grifo meu).

Um problema era que estavam buscando glória de homens e não “a glória que vem do Deus único” (v. 44). Jesus disse aos líderes (com efeito) que se alguém chegasse até eles afirmando ser o Messias sem, contudo, apresentar credenciais celestiais, eles o receberiam enquanto este os adulasse e promovesse a agenda deles (v. 43b). Ao contrário disso, os judeus se recusaram a aceitar Jesus, que veio com a aprovação do céu (v. 43a), porque Ele Se recusou a dar-lhes a glória que eles julgavam merecer.

Poderíamos resumir a condição das autoridades judaicas em Jerusalém dizendo que elas sabiam tantas coisas que não eram verdades, tantas coisas que não tinham importância, que eram surdas, mudas e cegas para a verdade (veja Mateus 13:15).

Não é sensato reconhecer que é possível ser um estudante da Palavra, até um estudante diligente, sem jamais chegar a um conhecimento da verdade que o leve à salvação? Que Deus nos ajude sempre a examinar as Escrituras com a atitude correta (“amor da verdade”; 2 Tessalonicenses 2:10) e com o objetivo correto (“conhecer ao Senhor”; Hebreus 8:11 ).

 CONCLUSÃO

Os líderes judeus provavelmente esperavam que Jesus Se intimidasse, quando O acusaram de violar o sábado, mas isto não aconteceu. Ao contrário, Ele enfrentou o desafio e proferiu algumas das Suas afirmações mais radicais. Já que foram incapazes de refutar os argumentos de Jesus, os judeus deveriam tê-lO aceito como o Filho de Deus—mas, infelizmente, eles continuaram não querendo aceitar.

E nós? João 5 não foi escrito só para expor a dureza de coração dos judeus do primeiro século, mas também foi escrito para desnudar os nossos corações no século XXI31. As alegações audaciosas de Jesus impedem que alguém permaneça neutro. C. S. Lewis escreveu o seguinte sobre essas alegações:

Na boca de qualquer falante que não seja Deus, essas palavras implicariam o que só posso considerar como uma tolice e uma vaidade sem par por parte de algum personagem da história.

…Você precisa fazer a sua escolha. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus: ou era um louco ou algo pior. Você pode fazê-lo calar-se como um louco, pode cuspir nele e matá-lo como um demônio; ou pode cair aos Seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus.

 Jesus estava sendo julgado em João 5—e ele ainda está sendo julgado nos corações da humanidade. Hoje você é o júri.

Qual é o seu veredito? Jesus falou a verdade? Ele realmente é quem alegou ser?

Se a sua resposta é “sim”, qual diferença essa conclusão tem feito na sua vida?

As alegações radicais de Jesus exigem um compromisso radical.

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