O Zelo pela Igreja - I Timóteo 3

…para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade (1 Timóteo 3:15).

Os planos e as provisões de Deus não são para indivíduos isolados, mas para a igreja como um corpo. Paulo instruiu Timóteo a respeito do plano de Deus em relação ao zelo pela Sua igreja exercido por presbíteros (3:1–7) e diáconos (3:8–13) qualificados. Ele também relevou o plano divino para o comportamento da igreja (3:14, 15) e para a certeza da salvação por parte do cristão (3:16).

O Cuidado para com a Igreja — Bispos

A maioria das congregações de hoje encontrase carente de homens fiéis que estejam espiritualmente fortes em Cristo e que sejam estáveis o bastante para cuidar do rebanho de Deus. Um número excessivo de cristãos estão convencidos de que jamais poderão ser presbíteros no corpo de Cristo. Será da vontade do Senhor que os homens pensem assim? A igreja precisa desesperadamente de um renascimento do espírito de se capacitar discípulos que continuem crescendo. Somente após um breve período na história de qualquer congrega- ção, é possível encontrar homens com maturidade, escolhidos e designados como presbíteros sem haver questionamentos nem discórdias, sem dúvidas nem receios (veja Atos 6:1–6; 11:29, 30; 14:21–23)1 . As qualificações para os presbíteros não são requisitos “impossíveis”. Não se destinam a um grupo seleto de crentes batizados, de modo que a maioria dos homens que são membros podem ignorar esse capítulo e Tito 1:6–9. Um cristão não deve pensar que pode parar de amadurecer e acomodar-se sendo “um cristão de nível médio”. Todos os cristãos precisam desenvolver essas mesmas qualificações básicas para serem como Cristo e representarem devidamente seu Mestre. Muitos pensam que os presbíteros têm de ser “supersantos”, enquanto o resto da irmandade está livre para estudar raramente, crescer só na indiferença e entregar-se à própria insensatez! Essa visão, independentemente do grau em que ela governe nosso pensamento, é um dos principais fatores da dificuldade de encontrarmos entre nós homens que possam ser designados para a liderança da igreja.

EXPLICAÇÃO DA FUNÇÃO (v. 1)

O que é um presbítero? Basicamente, é um cristão que desenvolveu a natureza de Cristo na maneira como conduz seus negócios, sua vida social, civil, doméstica e espiritual. Se uma congregação não consegue identificar esses homens entre seus membros após uma ou duas décadas de existência, ocorre um problema muito maior do que o da “organização”. Tal congregaçã precisa voltar-se para a necessidade de “cristianizar-se”! Não seria o caso de “escolher o que se tem de melhor”. Dizer que “todos os homens instituídos juntos preenchem as qualificações” não satisfaz os requisitos inspirados. Enquanto um extremo clama: “As qualificações estão fora de alcance!”, o extremo oposto rebaixa o padrão para o nível de “o melhor que temos”; pensando ser isso o suficiente. Exatamente no meio desses dois extremos ficam os parâmetros inspirados para qualquer homem que almeja fazer a excelente obra de um presbítero. Carecemos de mais homens que almejem e estejam qualificados para essa função vital na igreja do Senhor. Os homens espirituais mais velhos devem ajudar as crianças em Cristo a amadurecerem. Isso faz parte do plano divino para a igreja (3:15; veja 1 Pedro 1:22—2:2; 2 Coríntios 5:17–21). Tratase de um trabalho compensador com exigências específicas para os que pretendem realizá-lo.

O Gênero ou Sexo

Paulo escreveu: “Se alguém…” (3:1; grifo meu). Aqui se introduz a questão de alguns grupos religiosos terem mulheres ocupando o lugar de presbíteros. Este é um caso em que a divisão por capítulo deve ser respeitada. Paulo parou de falar sobre as mulheres depois de 1 Timóteo 2:15 e começou a falar sobre os homens em 1 Timóteo 3:1. Apesar da palavra “alguém” ser neutra quanto ao gênero, é óbvio que Paulo estava se referindo aos homens por dois motivos: 1) “bispo” (gr.: episkopon) é masculino, acusativo singular (de episkopos) e 2) sempre será impossível na ótica de Cristo que uma mulher seja “esposo de uma só mulher” (v. 2).

O Espírito

Paulo disse: “Se alguém almeja”. Esse espírito aspirante define o caso de um homem que pode estar capacitado para fazer o trabalho, mas diz friamente: “Não quero ser presbítero”. Nenhuma das demais qualificações tem a ver com desejo ou entusiasmo. Isto explica por quê. Paulo identificou a necessidade de abordar esse aspecto antes de descrever o caráter e as qualificações domésticas exigidas. Mais tarde, Pedro denotou a mesma idéia ao escrever que um presbítero deve “pastorear… não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer” (1 Pedro 5:2). Aquele que é instituído, mas não está disposto a trabalhar, torna-se um obstáculo ao progresso do povo do Senhor. Alguns têm preocupações legítimas em relação ao perigo de se abrir a porta para algum irmão como Diótrefes, que só queria exercer o domínio (3 João 9–11), ou a um que busca posição, como Tiago e João inicialmente fizeram (Marcos 10:35– 37). Paulo resolveu esse problema na próxima frase do versículo 1.

A Responsabilidade Observemos a construção grega na sentença de Paulo: “Se alguém aspira ao episcopado” (3:1; grifo meu). Trata-se mais de uma responsabilidade séria do que uma honra. É um trabalho, e não um posto! As palavras que Paulo usou para designar essa grandiosa tarefa aparecem alternadamente no Novo Testamento como “ancião”, “presbítero”, “pastor” (Atos 20:17, 28; Efésios 4:11; Tit 1:5, 7; 1 Pedro 5:1–3) e “bispo” (Tito 1:7). As implicações dos termos podem ser vistas da seguinte maneira:

Bispo    =    Responsabilidade e Autoridade

Ancião ou Presbítero  =  Idade e maturidade

Pastor    =    Serviço e espírito

O Serviço

Paulo afirmou que “excelente obra [o bispo] almeja”. A palavra “almeja” relacionada a “obra”, elimina todos que “buscam posição” e a palavra “excelente” elimina o espírito dominador associado à obra do presbítero. Portanto, essa frase descrimina um irmão que está tão ansioso pelo crescimento do reino que seu coração se afunda no serviço do Salvador. Tal atitude combinada com as qualificações que vêm a seguir resultarão sempre num grande trabalhador para Deus.

AS QUALIFICAÇÕES ALISTADAS (vv. 2–7)

Precisamos exercitar a cautela ao refletirmos nessas qualificações para os bispos. Ensino falso, idéias pré-concebidas e regras humanas têm muitas vezes minado as especificações do Espírito Santo. Esta é mais uma área em que temos de ser cuidadosos para não acrescentar nem tirar nada do que foi escrito! Paulo estava sendo específico quando mencionou “o bispo”. Ele estava escrevendo sobre um indivíduo e não um grupo de indivíduos. Cada homem deve ter todas as qualificações que Paulo alistou. Além disso, Paulo disse que “é necessário” que o bispo seja como ele descreveu. Ele não estava só sugerindo que o bispo possuísse essas qualificações, mas, de fato, estava ordenando que era necessário, imprescindível, que ele fosse assim. Tratava-se de uma obrigação do bispo. Devemos reconhecer, porém, que algumas dessas qualificações apresentam-se em níveis diferentes (tais como “cordato” e “hospitaleiro”). Os irmãos não possuirão essas qualidades exatamente na mesma proporção. O que devemos reconhecer é que o candidato ao presbitério tenha esses atributos num nível observável na vida deles. Se um homem é conhecido como alguém mais áspero do que cordato, mais intolerante do que temperante, mais infame do que respeitoso, já está desqualificado devido ao baixo nível desses atributos. Duas observações podem ser feitas aqui. Em primeiro lugar, devemos definir cada palavra e frase que Paulo usou. Em segundo lugar, devemos entender o paralelo inspirador entre os requisitos para presbíteros e o que qualquer membro da igreja deve ser! Para entender melhor essas duas observações, observe o quadro “As Qualificações dos Presbíteros” que apresenta os diferentes termos usados em cinco versões da Bíblia: Edição Revista e Atualizada, Edição Revista e Corrigida, A Bíblia de Jerusalém, a Nova Versão Internacional e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Nossa intenção não é aprovar ou desaprovar alguma dessas traduções, mas simplesmente comparar as variações existentes. Todo membro da igreja deve possuir as mesmas qualificações que um presbítero possui nessas áreas da vida. Naturalmente, não se requer que uma mulher tenha uma esposa, nem tampouco Cristo exige que o homem solteiro consiga uma esposa para ir para o céu. Todavia, se um homem solteiro e cristão decide casar-se, deve ser esposo de uma só mulher, assim como o que é exigido de um presbítero (1 Coríntios 7:1, 2; Mateus 19:5, 6). Qualquer casal cristão, unido pelo matrimônio, decidindo ter filhos, deve educá-los e treiná-los para que creiam, sejam fiéis e não sejam acusados de dissolução, nem insubordinados (Tito 1:6; Efésios 6:1–4). Também, um cristão não deve permanecer como um novo convertido (Hebreus 5:11–14; 1 Pedro 3:15; 2:2). Cruzando as definições e traduções desses termos e expressões, podemos obter um entendimento mais claro das qualificações para os presbíteros.

O Negativo

“Irrepreensível”. Apesar de os apóstolos e o próprio Cristo terem sido confrontados por causarem problemas (veja Mateus 12:2, 24; 15:2; Lucas 13:14; Atos 17:6; 24:5), ninguém podia acusá-los verdadeiramente de fazer algo errado. Semelhantemente, o presbítero deve ser um homem que vive de forma que ninguém possa acusá-lo de algo errado. “Não dado ao vinho”. Não é só a embriaguez que é proibida aqui. Se fosse, sem dúvida, haveria uma palavra que expressasse essa idéia. A palavra “muito” nem se encontra no original. O termo grego significa “dado ao vinho”. Indica um homem que faz um uso mais livre do vinho do que as pessoas sóbrias costumeiramente fazem, embora jamais venha a se intoxicar . “Não violento”. A pessoa violenta é literal mente “um atacante”. Alguém que não tem domínio-próprio em momentos críticos. “Inimigo de contendas”. O presbítero não está “sempre pronto para uma briga” nem tem como característica a discussão e a contestação. Tal pessoa “evita contendas de palavras que para nada aproveitam” (2 Timóteo 2:14). Os presbí- teros certamente devem evitar esse espírito11 . “Não avarento” . Em Tito 1:7 Paulo usou a expressão “não cobiçoso de torpe ganância”. Esse tipo de pessoa tem um apetite por ganhos desonestos (1 Timóteo 6:9). Seria um convite a problemas colocar as verbas do Senhor nas mãos desse indivíduo. Lembremo-nos de Judas Iscariotes (João 12:4–6). “Não seja neófito”. Um cristão recém convertido pode ver o fato de ser presbítero como um cargo de prestígio, e não uma séria responsabilidade. Como um inspirado mensageiro de Deus, Paulo estava ciente de que, se um bebê cristão se tornasse presbítero, seria tomado pela vaidade e cairia em condenação por causa do orgulho. Além disso, um novo convertido não têm o conhecimento bíblico ou a sabedoria espiritual para ensinar e pastorear o rebanho. “Não arrogante”14 (Tito 1:7). O homem arrogante exige a sua preferência independentemente dos desejos dos irmãos mais sábios e conhecedores. Tal pessoa ou inibe as boas idéias ou domina como um ditador, privando as almas que Cristo libertou de se desenvolverem espiritualmente. “Não irascível”15 (Tito 1:7). Um homem precipitado e impetuoso, que se enfurece facilmente não pode julgar friamente, sendo incapaz de resolver problemas difíceis e situações críticas na igreja, com paciência e tranqüilidade.

O Positivo

“Esposo de uma só mulher”. Embora essa qualificação soe aparentemente auto-explicativa, ela tem sido foco de muito debate. J. W. McGarvey apresentou o seguinte resumo:

             A expressão “esposo de uma só mulher” é interpretada de três maneiras diferentes: 1) excluindo o homem que tem uma segunda esposa, sendo a primeira falecida; 2) excluindo somente o homem que tem duas ou mais esposas; 3) excluindo o item             anterior e o homem que não tem esposa. O numeral “uma” adjunto de “esposa” certamente elimina a idéia de mais de uma; quanto a isso não há diferença. Não creio que a expressão exclua um homem que tem uma segunda mulher, pois ele não é mais             esposo da mulher falecida; sendo esposo de uma só. A expressão excluiria homens que não têm esposas? Para mim, parece que sim. Um homem que tem um olho, uma mão e um pé não é a mesma coisa que um homem sem olho, sem mão e sem pé!             Um homem que tem um amigo, uma casa, uma fazenda, com certeza, não é um homem sem amigos, sem casa, sem fazenda. Semelhantemente, se ele é esposo de uma só mulher, ele não é alguém que não tem mulher.

Pode-se deparar com uma quarta situação no caso de um casamento, seguido de divórcio e novo casamento. A pergunta vital é: “Foi um divórcio bíblico, segundo o qual o homem teve o direito de casar-se novamente?” Se assim for, ele é “esposo de uma só mulher”. Quando ocorreu o divórcio? Isso afetaria seu serviço de pastorear o rebanho? Pode ser preciso considerar essas interrogações.

“Temperante”. Um homem que coloca Deus em primeiro lugar precisa pensar nos outros antes de si. Analise Romanos 14:21. “Sóbrio” (sensato; NVI). Os presbíteros não devem ser dados a infantilidades (1 Coríntios 13:11; 14:20). Nisto se incluem brincadeiras inapropriadas. A mesma palavra grega também aparece em Tito 1:8. “Modesto” (respeitável; NVI). Um homem desordeiro em sua vida e trabalho faria com que a igreja se tornasse desordeira no seu procedimento. Isso resultaria em deixar de detectar as ovelhas errantes, disciplinar a conduta irresponsável de membros, conciliar membros em atrito ou desenvolver mais o potencial dos irmãos. Em questões materiais, os registros ou atas da igreja não seriam atualizados e a correspondência seria negligenciada. Seria impossível realizar estudos sobre o crescimento da igreja, e o planejamento de ensino talvez nunca atendesse às necessidades da congregação. Financeiramente, contas não seriam pagas; o potencial da congregação para as ofertas jamais seria estudado; nem os irmãos, desafiados. A adoração seguiria uma rotina em vez de modelos planejados para incitar reverência e piedade. A visão evangelística jamais seria desenvolvida, nem se encontraria tempo para algum projeto efetivo. Que preço alto a congregação pagaria por sua liderança não possuir a virtude da ordem e da consagração! “Hospitaleiro”. O lar do presbítero deve estar aberto aos que buscam ensino e aconselhamento. Pastorear a congregação requer que o presbítero passe tempo com os membros para conhecê-los. Otto Foster fez esta observação:

            [Esta é uma] qualidade que o presbítero deve possuir em tal nível que ele influencie outros a seguirem seu exemplo. Hospitalidade significa ser amigo dos visitantes que freqüentam os cultos da igreja e manifestar interesse pelos novos membros da             congregação. Hospitalidade significa levar pessoas para casa, não só o pregador convidado, mas os membros que são fracos e podem ser encorajados por meio do relacionamento com membros mais fortes da igreja. Significa ser hospitaleiro aos que não             são membros do corpo de Cristo, pois fazendo isso podem transmitir um conhecimento da beleza e maravilha do lar cristão e das vidas que ali residem.

“Apto para ensinar”. Por definição, “apto para ensinar” sugere que um presbítero precisa ter algum talento nessa área. Além disso, ele precisa desejar ensinar e desenvolver suas habilidades pedagógicas (Jeremias 3:14, 15; Ezequiel 34:1–10). J. W. McGarvey examinou o tipo de ensino que um presbítero deve dar:

            Que ensino é esse? Não era pregação; pois a pregação destinava-se ao mundo, não à igreja, e o trabalho do presbítero limita-se à igreja. Evidentemente, trata-se do ensino prescrito na segunda parte da comissão apostólica: “…ensinando-os a guardar             tudo o que vos tenho ordenado”. Por extensão, então, o trabalho dos presbíteros se igualava com o dos apóstolos, e a maneira como era feito pode ser copiada, em partes, da maneira como os apóstolos realizavam o mesmo trabalho. Paulo descreve seu             método quando diz aos presbíteros de Éfeso, referindo-se ao seu trabalho naquela cidade: “Jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa” [Atos 20:20]. Isto o apóstolo coloca diante             deles como um exemplo (Atos 20:35); e assim ficamos sabendo que eles foram guiados a ensinar de casa em casa e também publicamente

“Cordato”. Esta qualidade apresenta alguém que é ponderado, e tem uma consideração saudável pelos sentimentos de outrem, assim como uma mãe tem pelo filho (1 Tessalonicenses 2:7–12).

“Que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito”. Observe que isso inclui os filhos, mas poderia incluir outras pessoas. O presbítero deve governar bem sua casa. Com essa postura diligente, atenta, prestativa, dirigente e mantenedora, um presbítero deve ter filhos que certamente estejam em sujeição. Esse tipo de sujeição deve ser obtida com todo o “respeito”. Adicione-se a esse presidir paternal por parte do presbítero e a essa resposta por parte de seus filhos as idéias complementares de Tito 1:6: “que tenha filhos crentes, não acusados de dissolução, nem insubordinados”. Novamente, examinar a linguagem de Paulo é de extremo valor. Observemos a palavra “crentes”. A definição para o verbo pisteuo, “crer”, é “pensar ser verdade: estar persuadido de… depositar confiança em…” Aplica-se especialmente a ter fé em Cristo e entregar-se a Ele, o que, segundo as Escrituras, é a definição exata de crentes, incluindo os crentes citados em Tito 1:6. Os filhos do presbítero não devem viver de modo a serem acusados de dissolução. Não devem ser insubordinados. Esses dois requisitos expressam o oposto — o negativo — da idéia positiva de que os filhos do presbítero devem estar em sujeição. A NVI diz: “É preciso que o presbítero tenha filhos crentes, que não sejam acusados de libertinagem ou de insubmissão” (Tito 1:6).

Perguntas e Observações Sobre os Presbíteros e Seus Filhos

1. O presbítero precisa ter mais de um filho crente? Embora Paulo estivesse dando qualificações particulares para um homem em particular, seria justificável aplicarmos a regra segundo a qual “o plural (filhos) compreende necessariamente o singular”? A intenção do texto é dar ênfase ao número, ou à natureza dos filhos? Uma passagem como 1 Timóteo 5:16 (que contém a mesma construção básica, em grego ou em português, de Tito 1:6) convence-me de que a ênfase está na natureza dos filhos, de modo que um homem pode estar qualificado se tiver um filho crente, o qual não seja acusado de dissolução ou insubordinação. (Analisemos “filho” e “filhos” em Gênesis 21:7; Marcos 10:29; Lucas 20:29– 31; 1 Timóteo 5:4; 1 Coríntios 7:14.) Dizer que quanto maior o número de filhos, maior a prova das habilidades paternais é na verdade fazer um acréscimo ao que a Palavra diz. Será que um pai de dez filhos tem cinco vezes mais capacidade de liderança do que um pai de dois filhos? Será que um pai de dois filhos, por ter a pluralidade, é duas vezes mais capaz do que o pai de um filho único? Se isso fosse um critério válido, não deveriam os presbíteros de congrega- ções maiores ter mais filhos que os presbíteros de congregações menores? Quemacreditaria em tal raciocínio? A ênfase não está na capacidade biológica de se procriar, mas na liderança do presbítero em desenvolver as qualidades espirituais no povo de Deus. A Bíblia em parte alguma afirma, nem mesmo insinua, que o número de filhos determina o grau de capacidade de governar uma família ou a visão paternal. Se um pai pode criar fielmente um filho em Cristo isso já não é uma demonstração de que ele poderia também criar dois filhos? Se ele não leva um filho a Cristo, quem poderia garantir que levaria dois ou três? Não nos preocupemos tanto com o número de filhos a ponto de menosprezarmos a natureza, o caráter dos filhos. Não nos preocupemos tanto com o tamanho da família a ponto de nos esquecermos de contemplar a beleza dessa família! 2. Se um presbítero tem dois filhos fiéis mas um infiel, ele deve renunciar? Em primeiro lugar, ele deve orar e buscar todos os meios disponíveis para trazer de volta o filho infiel — e a irmandade deve ser compreensiva e dar-lhe tempo para isso. Visto que Deus deu a cada pessoa livre arbítrio, o filho infiel pode permanecer rebelde após todos os esforços bíblicos e amorosos para trazê- lo de volta à igreja. Se for esse o caso, o presbítero poderá ter de se separar do pró- prio filho (Deuteronômio 21:18–21; Mateus 18:15–18; 2 Tessalonicenses 3:6, 14, 15). O presbítero que agir assim se mostrará fiel ao Senhor. Se conseguir trazer o filho pródigo de volta a Cristo, verdadeiramente terá provado ser o tipo que vela pelas almas do rebanho (Hebreus 13:17). Se o filho de um presbítero continuar vivendo de modo infiel e o presbítero nem tenta restaurá-lo a Cristo nem se mostra preocupado com o problema, terá provado ser indigno de velar pelas almas da congregação. Deixará de estar qualificado para ser presbítero, nem será confiável para desempenhar essa função. Como ele poderá aconselhar uma família com problemas, dandolhe a confiança de oferecer soluções sábias para as circunstâncias em que se encontrarem? 3. Se um homem tem dois filhos fiéis e um muito jovem para ser cristão, ele pode ser considerado um candidato ao presbitério? Esse irmão certamente tem filhos que são fiéis e não podem ser acusados de dissolução nem insubmissão. Ele preenche as qualificações de nível doméstico. Se ele não pode ser escolhido e instituído, o que dizer de um irmão que tem dois filhos fiéis e, dois meses após tornar-se presbítero, engravida a esposa? Será que, sete meses depois, ele deverá renunciar até que, entre dez e doze anos (ou mais) depois, esse filho caçula obedeça a Cristo? 4. Um presbítero ainda é responsável por filhos que já não vivem com ele? Ele pode servir fielmente, ainda que seus filhos (morando fora do seu lar) não sejam mais fiéis? Em primeiro lugar, observemos a definição de “sua própria casa”, em 3:4. Significa, entre outras coisas, “todas as pessoas que formam uma família, uma casa… descendentes de uma pessoa”. Essa definição vai além da idéia de filhos que vivem “debaixo do mesmo teto”. Em segundo lugar, 1 Timóteo 5:3–5 ainda era aplicável quando um filho deixava de morar no lar. É fundamental assumirmos uma obrigação especial para com nossos familiares (quando a doença ou a tragédia sobrevém), estejam ou não morando conosco. Em terceiro lugar, Provérbios 22:6 afirma um princípio que deve ser ponderado: se uma criança não permanece fiel, não lhe terá faltado treinamento no lar? Educar os filhos é muito mais do que “fazer eles irem aos cultos de adoração”. Em quarto lugar, se os filhos de um presbítero forem infiéis, será que os irmãos confiarão a ele seus problemas familiares? Será ele capaz de executar o trabalho que o Senhor o separou para fazer? Minha opinião pessoal é que um homem nessa situação está desqualificado e inapto para fazer o trabalho cabível a um presbítero. Estas diretrizes podem ajudar a responder outras perguntas que venham a surgir. Retornemos agora à lista de qualificações especificada por Paulo.

“Bom testemunho dos de fora”. Significa ter uma boa reputação entre os que estão fora da igreja e, portanto, no mundo. Alguém disse: “Um homem que já viu o sol nascer quadrado ou que teve má reputação pode se arrepender de seus erros, mudar de vida e voltar para casa para viver com Deus para sempre se continuar fiel, mas não estará qualificado para ser presbítero na igreja”. É preciso haver cautela para não sermos tão extremistas assim. Por exemplo, sabemos com base em 1 Pedro 5:1, que Pedro era presbítero. Todavia, sua reputação nem sempre foi imaculada; no passado, ele negou que conhecia o Senhor (Mateus 16:22, 23; 26:69–75; João 18:10, 11). “Amigo do bem”37 (Tito 1:8). Quem ama o bem, busca o bem. Ao fazê-lo, estará incentivando os outros a fazerem o mesmo. “Justo” (Tito 1:8). Um presbítero se relaciona com diversas personalidades, potenciais variados e problemas múltiplos. Ao delegar autoridade e responsabilidades, é muito importante que ele seja justo e imparcial! No campo vital da disciplina da igreja, o parecer de um presbítero deve ser isento de preconceitos, emoção, ou egoísmo (veja 1 Coríntios 6:4–9). “Piedoso”39 (Tito 1:8; “consagrado”; NVI). Que desafio é ser consagrado! A pureza de pensamento e obra é verdadeiramente um bem ao que está tentando cumprir as responsabilidades de um presbítero (1 Pedro 1:15, 16; Levítico 11:44, 45; 19:2; veja Mateus 5:48). “Que tenha domínio de si” (Tito 1:8). Logo se perde o respeito por um homem incapaz de controlar-se a si mesmo. Um presbítero encontrará muitas personalidades e poderá ser posto à prova neste sentido. dessas qualificações e ainda assim estar qualificado para realizar a obra determinada pelo Senhor? Algumas dessas qualificações são impossíveis? Não devemos tentar fazer as qualificações se enquadrarem no indivíduo, pois o indivíduo é que precisa enquadrar-se nas qualificações. Deus estabeleceu um padrão e ai daquele que acrescentar ou tirar algo disso . “Se distorcermos e contorcermos o modelo para que, finalmente, se encaixe no indivíduo, todo estímulo por parte desse indivíduo para que ele melhore sua vida lhe será tirado. Ele se sentirá bom o bastante como está. Que Deus nos livre disso.” Seria bom estudar também o trabalho que compete aos presbíteros realizar em outras passagens bíblicas43 e traçar um paralelo disso com tudo o que temos observado concernente às suas qualificações. Que bela harmonia fica assim evidente! Os presbíteros precisam dessas qualidades para a realização do seu importante trabalho. A sabedoria de Deus é óbvia. Como o Espírito Santo escolheu bem os homens capazes de realizar o serviço! Que permaneçamos sendo guiados por Deus a fim de que almas cheias do Espírito Santo sejam escolhidas para velar por nós e nos conduzir a níveis mais elevados de serviço e espiritualidade (Atos 20:28; Hebreus 13:7, 17).

Lição 8 3:8–13 O Cuidado com a Igreja — Diáconos

Vimos que a igreja deve ter supervisores ou bispos. Quem deve ser supervisionado e o que é ser supervisionado? Paulo introduziu servos e serviços específicos ao detalhar o comportamento da igreja. A palavra grega diakonos geralmente é traduzida por “diácono” (3:8; Filipenses 1:1), “servo” (Mateus 23:11) e “ministro” (Efésios 6:21) no Novo Testamento. Independentemente da tradu- ção, uma idéia prevalece em cada caso: denota um homem que trabalha com, para e subordinado a outros. Na Palavra de Deus a idéia de servir e ser servo é encontrada mil e seiscentas vezes — quatro vezes mais que amor e cinco vezes mais que fé. Nenhuma demonstração real de amor ou fé pode ocorrer sem que se preste serviço.

AS QUALIFICAÇÕES ALISTADAS (vv. 8, 10, 12)

Num sentido amplo, cada membro da igreja é um servo do Senhor. Todavia, alguns homens são destacados para desempenhar deveres regulares e específicos na obra do Senhor. Ron D. Smotherman afirmou o seguinte:

            Vários termos gregos são usados no Novo Testamento para indicar os tipos de serviço prestados. Doulos refere-se a um escravo comum. Latros implica um servo contratado. Leitourgia identifica o serviço de um trabalhador público. O serviço médico é             expresso por therapeo. Diakonia é o serviço desempenhado através do amor. Qualquer um desses termos poderia ter sido escolhido como o termo primitivo de “ministério” (serviço), mas o último termo, diakonia, foi o escolhido, talvez por ser a única palavra             que expressa o serviço voluntário. O termo é usado em inúmeros contextos. Arndt e Gingrich enumeram 37 ocorrências dele no Novo Testamento. Os cognatos, diakonein e diakonos, ocorrem 34 e 30 vezes, respectivamente.

Os homens separados para os serviços especiais são chamados “diáconos”45 e 1 Timóteo 3:8–13 apresenta as qualificações para esses servos especiais. Entender o significado de cada qualificação é importante. Examinemos, portanto, a lista de Paulo: “Respeitáveis”46 . Juntando os conceitos de honra, seriedade e dignidade, podemos visualizar um homem que não é leviano nem frívolo em sua atitude para com a obra do Senhor. Ele reconhece que a obra do Senhor é negócio sério. “De uma só palavra”47 . Nenhum diácono deve falar de duas maneiras diferentes para ser conveniente com a companhia ora presente. Isto seria uma tentação para um diácono que, em subordinação aos presbíteros e com a intenção de servir os irmãos, é deixado como um intermediário para agradar ambos os lados! “[Não] inclinados a muito vinho”48 . A mente do diácono não deve estar tão ligada ao vinho a ponto de ser controlada pela própria bebida. Essa instrução foi dada numa cultura em que Paulo podia instruir Timóteo a tomar um pouco de vinho para o bem do seu estômago (veja 5:3). Numa cultura em que o consumo de bebidas alcoólicas prejudicaria a influência de uma pessoa ou conduziria outros a beberem, Romanos 14:21 deve ser o guia do cristão! “[Não] cobiçosos de sórdida ganância”49 . O fruto dessa atitude na obra do Senhor é facilmente visto no caso de Judas Iscariotes (João 12:1–8; Mateus 26:14–16). O desejo pelo dinheiro mais cedo ou mais tarde domina o homem e destrói sua reputa- ção no trabalho, e também abala sua influência para o bem como diácono na igreja do Senhor. “Conservando o mistério da fé com a consciência limpa”51 . Aqui está um homem que cumpre fielmente 2 Timóteo 1:14 e a última parte de 1 Timóteo 3:15:

               Guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós (2 Timóteo 1:14).

            …Se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade (1 Timóteo 3:15).

O diácono tem sido chamado de “porta-jóias”. Ele verdadeiramente reconhece o evangelho como um tesouro; cuida dele com diligência e vive por ele, não para se mostrar nem para enganar, mas tendo respeito por ele. É assim o seu modo de vida. “Irrepreensíveis”53 . Os diáconos precisam ser como aqueles irmãos escolhidos em Atos 6:3 para um serviço especial:

            “De boa reputação” — corretos perante os homens

            “Cheios do Espírito” — corretos perante Deus

            “Cheios de sabedoria” — corretos na obra

Observe a primeira parte do versículo 10. Para alguém se achar “irrepreensível”, o dever em que foi “posto à prova” deverá ter sido cumprido. Trata-se de uma tarefa séria. “Marido de uma só mulher.” Esta qualificação demanda três quesitos: 1) que ele não tenha duas ou mais, mas só uma mulher, 2) que ele tenha uma esposa, sendo casado, 3) que ele seja fiel à esposa que tem. Não seria possível confiar adequadamente num homem sensual ou carnal como representante do Senhor. “Governe bem seus filhos e a própria casa.” O diácono não só deve “governar” sua casa, como deve governá-la “bem”56 (ERA, ERC, NVI). Aqui se apresenta um homem que realiza um bom serviço em guardar e proteger seu lar do mal. Ele zela pela sua casa e dá atenção a ela, sendo de praxe mantê-la em condições excelentes, nobres e honrosas!

            Da mesma sorte, quanto a mulheres, é necessário que sejam elas respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo.

Servas Especiais (v. 11)

No versículo 11 Paulo inseriu, de repente, alguns dados específicos relativos às mulheres: Da mesma sorte, quanto a mulheres, é necessário que sejam elas respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo. As variadas traduções têm levantado interrogações quanto a quem podem ser essas mulheres. Para quem se destinam essas qualificações? Há três pontos de vista: 1. Refere-se às esposas dos diáconos. [A NVI traz uma nota ao termo que diz: “Ou As esposas dos diáconos; ou ainda As diaconisas”.] 2. Refere-se às esposas tanto dos bispos como dos diáconos. 3. Refere-se às mulheres que servem de modo semelhante como servas, tais como Febe, em Romanos 16:1. (O grego é diakonon, acusativo singular feminino de diakonos, palavra esta equivalente a “diácono”.) Paulo deu quatro qualificações específicas. Essas mulheres devem ser “respeitáveis” (como em 3:8, o que garante uma conduta honrosa e digna). São mulheres “não maldizentes”. A palavra que Paulo usou, na sua forma masculina, é a palavra equivalente a “diabo” — a força de todo o mal. Por isso, Robertson chamou as maldizentes de “diabas”. Observe João 8:44. Devem ser “temperantes”60 . Isto descreve mulheres atentas à própria reputação. Finalmente, devem ser “fiéis em tudo”, termo que inclui tudo o que já foi dito.

A OBRA E SUAS COMPENSAÇÕES (v. 13)

É necessária uma atenção especial à expressão usada por Paulo ao dizer que os diáconos devem servir “bem”. Em alguns casos, os diáconos agiram além do papel determinado para um servo. As decisões finais cabem aos presbíteros (presumindo-se que permitam que a Palavra de Deus lhes sirva de guia). É vergonhoso e pecaminoso para os diáconos reunirem-se com os presbíteros e, por voto da maioria, “vencerem” os presbíteros. Três erros estão envolvidos quando ocorre isso: 1) os presbíteros não estão supervisionando como deveriam (Hebreus 13:17). 2) Os diáconos não estão servindo como deveriam. 3) A regra da maioria não é bíblica, pois todos hão de concordar que os mais jovens devem submeter-se aos mais velhos. Acima de tudo, a igreja deve observar tudo o que Cristo ensinou. (Veja 1 Coríntios 1:10; 1 Pedro 5:5; Mateus 28:20.) Mesmo quando os diáconos estão certos, devem seguir as diretrizes bíblicas ao manifestarem essa “certeza” (1 Timóteo 5:1, 19, 20; 1 Pedro 5:1–6). Observe a riqueza que brota da admoestação de Paulo para que os diáconos sirvam “bem”.

A consagração ao dever não deixa espaço para o esforço indiferente. Um servo dedicado será um bom executor de instruções. Com certeza, desempenhará sua função seguindo as orientações divinas. Que dignidade acompanhará as suas pegadas! Smotherman fez esta ressalva:

            A comunidade cristã primitiva entendia diakonia de uma forma muito prática e prestava o serviço que fosse necessário (Atos 4:35)… Por volta do terceiro século, deixou-se de enfatizar a dignidade do serviço, salientando-se a subordinação do diácono ao             bispo… É totalmente possível que o Novo Testamento seja intencionalmente obscuro quanto aos deveres do diácono, para que diáconos de todas as faixas etárias sirvam de acordo com as necessidades temporárias… Com tal silêncio, o Novo Testamento             permitiu que os primeiros diáconos servissem com qualquer habilidade para a qual estivessem qualificados e prestassem qualquer serviço a eles confiado. Hoje em dia, os diáconos não devem fazer menos do que isso.

Um serviço tão magnífico como esse, executado por diáconos consagrados, não passará despercebido ou sem compensações. Deus jamais atribui deveres importantes sem oferecer grandes bênçãos e galardões. Os galardões divinos são muitos: a natureza do diácono — o que ele passa a ser — será algo de notável beleza, deleite, contemplação, espontaneidade e diligência. O diácono desenvolve “uma justa preeminência” (3:13) — um bom ponto de apoio. A congregação terá prazer em trabalhar com ele. O diácono também ganha “intrepidez na fé em Cristo” (3:13). O clímax disso tudo é o céu como morada de um diácono diligente. Alguém poderia querer mais? A igreja de hoje precisa do tipo de servos e lí- deres descritos por Paulo. Quanto ensino e treinamento os evangelistas e as congregações em geral estão oferecendo aos membros para prepará-los para esses importantes ministérios especiais?

Lição 9 3:14, 15 O Cuidado com a Igreja — Um Resumo

COMO DEVEMOS PROCEDER (vv. 14, 15a)

O propósito de Paulo ao escrever a Timóteo era deixar cada membro da igreja ciente de “como se deve proceder”. Aprender como proceder implica uma “mudança” ou “virada” do comportamento anterior. Algumas expressões equivalentes mais comuns a nós seriam: “acertar”, “fazer uns ajustes” ou “configurar”. As pessoas mudam quando estão em Cristo, tornam-se novas criaturas (2 Coríntios 5:17). Grandes presbíteros e diáconos em Cristo não se desenvolvem sem alguma transformação, alguma manifestação de força e coragem, algum aumento de pureza e santidade que só podem fluir através do crescimento na graça e no conhecimento de Deus (2 Pedro 3:18; 2 Timóteo 1:7; 2:1).

COMO DEVEMOS VER A IGREJA (v. 15b)

O foco em nosso comportamento pessoal é ampliado por Paulo quando ele enfatiza que devemos ser “a igreja do Deus vivo”. Um Deus vivo não gera filhos mortos nem desenvolve uma descendência apática, indiferente! Nosso relacionamento com o Deus vivo é a chave para procedermos conforme os devidos padrões de comportamento (Mateus 5:48; Filipenses 2:22; 1 João 3:1–3). A maneira como procedemos enquanto igreja de Cristo pode depender de como vemos a igreja dEle.

Coluna da Verdade

Timóteo certamente não teve dificuldade para entender a figura de discurso usada por Paulo, que descreve os cristãos (a igreja) como coluna da verdade. Passagens como Apocalipse 19:6–8, Mateus 5:16; 2 Timóteo 2:19; 1 Timóteo 6:20 e Tito 2:10–14 identificam como o povo de Deus pode adornar a doutrina, ou a verdade (isto é, “tornem atraente, em tudo, o ensino de Deus, nosso Salvador”, Tito 2:10; NVI). Poder fazer isso sendo colunas encaixava-se especialmente no cenário em que Timóteo estava ao receber a epístola. A carta chegou às mãos de Timóteo em Éfeso (1:3), o local do Templo de Ártemis ou Diana (Atos 19:28), a respeito do qual Barclay teve o seguinte a dizer:

            Esse templo era uma das sete maravilhas do mundo. Uma das características desse templo eram suas colunas. Havia nele cento e vinte e sete colunas, cada uma sendo presente de um rei. Todas de mármore e algumas enfeitadas com pedras preciosas e             revestidas de ouro. O povo de Éfeso sabia bem como uma coluna podia ser bela. Pode ser que a idéia da palavra coluna aqui não seja tanto de apoio — contida na palavra baluarte — quanto de exposição. Com freqüência, a estátua de um homem famoso             é colocada no alto de uma coluna para ser claramente vista, até a distância. A idéia aqui é que o dever da igreja é segurar no alto a verdade de modo que todos a vejam. É dever da igreja exibir e demonstrar a verdade

Baluarte da Verdade Se a idéia de ser “coluna” convoca a igreja a tornar atraente a doutrina, a expressão seguinte convoca a igreja a defender a doutrina como o “baluarte da verdade”. A Edição Revista e Corrigida utiliza o termo “firmeza” no lugar de “baluarte”, apresentando mais claramente a responsabilidade aqui desfrutada pelos membros. Os cristãos têm uma responsabilidade de guardar a verdade (1 Timóteo 6:20, 21; 2 Timóteo 1:14). Esse guardar não se deve a um medo de que a verdade não perdure ou seja destruída (veja Mateus 24:35), mas trata-se de uma preocupação de que falsos profetas e mestres façam mau uso dela (veja 2 Timóteo 3:2–13; Romanos 16:17, 18; 2 Pedro 2:1–3). Se um banco fosse roubado, esperaríamos que o ladrão destruísse o dinheiro, ou nossa preocupação seria o uso que ele faria das cédulas? Os cristãos não precisam temer que homens ou o diabo destruam a verdade; mas devem protegê-la do abuso e do mau uso. A preciosa verdade de Deus deve ser mantida pura para que a posteridade ouça e creia. Tendo o Senhor depositado o Seu tesouro em vasos de barro (2 Coríntios 4:1–7), precisamos guardá-lo (2 Timóteo 1:13, 14), protegendo-o de pessoas ignorantes e inconstantes que deturpam as Escrituras para a destruição de si mesmas e de outras que lhes dão ouvidos (2 Pedro 3:16–18; Romanos 16:17, 18). Assim como Cristo é o fundamento em que a igreja está edificada (1 Coríntios 3:10, 11), os membros da igreja são colunas e baluartes. Temos de demonstrar o que é certo e mostrar uma razão para que todos creiam e obedeçam à verdade (Efésios 3:1–12, especialmente vv. 8–10).

A Confiança da Igreja (v. 16)

Paulo mudou sua narrativa provocando um grande clímax no versículo 16, justificando cada exortação dada no capítulo 3. Tudo o que fazemos ou nos tornamos como igreja de Cristo provém de um poderoso mistério já revelado. Esse mistério revelado, centrado em Cristo, ressoa numa confiança divinamente bela e em bênçãos. A preciosidade e a grandeza do mistério revelado, pelo qual a piedade se faz presente nos pecadores, prevalece de maneira indiscutível. Como disse Paulo, “sem dúvida alguma”, grande é o mistério professado. Assim, o versículo 16 constitui uma razão para a igreja responder pela verdade. Não é mais um mistério (Efésios 3:3–6; Romanos 16:25–27). Em 3:9 Paulo mencionou que o mistério da fé é conservado com a consciência limpa. Não podemos fazer isso sem saber o que estamos conservando — um plano precioso que é conhecido e que Paulo declarou no versículo 16 como sendo “grande”! O mistério de Deus, agora desvendado, é grande em escopo, relevância e santidade. Paulo deu várias razões para enfatizar essa grandeza:

1. O grande dom de Deus: Ele chegou. “Aquele que se manifestou em carne” (v. 16; veja João 1:1–4, 14; 3:16; Gálatas 4:4; Filipenses 2:5–8).

2. Um grande testemunho: Ele foi aprovado. Jesus Cristo “foi justificado em espírito” (veja João 16:7–14; Lucas 24:45–49; Atos 1:5–8; 2:1–4, 15–24, 29–41; Romanos 1:4; 8:11). Justificação aqui é um termo usado não no sentido de perdoar um mal (pois Jesus nada fez de mal), mas no sentido de corrigir um erro judicial cometido por homens (Isaías 53:4–8; Atos 8:28–39; 1 Pedro 2:21–25).

3. Um grande número de ouvintes: Ele foi adorado. Cristo foi “visto dos anjos” (veja 1 Pedro 1:10–13; Efésios 4:8–10; Salmos 68:17–19; Filipenses 2:9, 10; Apocalipse 5:11, 12) Os céus aplaudiram!

4. Uma grande história e repercussão: Ele foi aclamado. Cristo foi “pregado aos gentios” (veja Mateus 28:18–20; Atos 1:8; Colossenses 1:23; Apocalipse 1:7; Mateus 25:31–46).

5. Uma grande resposta: Ele foi aceito. Cristo foi “crido no mundo” (veja 1 Pedro 1:18–23; Atos 2:41; 5:14; 9:31; Romanos 15:18, 19; 16:25–27; Filipenses 2:9–11).

6. Uma grande posição: Ele subiu. Cristo foi recebido “acima, na glória” (veja Atos 1:9–11; Hebreus 2:9; Efésios 1:18–23; João 17:5; Apocalipse 5:6–14).

Cada estágio dessa história (mistério), cujo centro é Jesus Cristo, nosso Senhor, é grande. Pensemos em quem Jesus é e o que Ele fez. O mistério de Deus foi revelado a nós de uma maneira muito real em Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo! As palavras abaixo resumem bem a grandeza de Deus e de Seu mistério revelado:

            Considera-se um grande ultimato da soberania e do amor onipotente, a assim intitulada ‘Filantropia de Deus, nosso Salvador’, cujo resplendor se irradia desde a face arredondada do Sol de Justiça e misericórdia — o desígnio contemplado e a consumação             do maior de todos os acontecimentos; a investidura do Senhor Jesus de absoluta soberania, sendo o único monarca a reinar entre toda a criação de Deus… Entre os homens isso seria chamado de uma “Revolução no universo”; um termo, todavia,             totalmente impertinente. De fato, trata-se de uma ilustre época, uma nova era na eternidade, “a consumação dos séculos”… Essa consagração ou unção, de Jesus, como autocrata do universo, foi, na verdade, o acontecimento maior, mais sublime e             augusto que já aconteceu.







Categoria:Estudo Bíblico

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